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Hoje é Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2026.
Em Mato Grosso do Sul, as variações no preço da arroba do boi estão diretamente relacionadas ao ciclo pecuário, um movimento estrutural da atividade que reflete decisões produtivas tomadas pelos pecuaristas e cujos impactos só aparecem meses ou até anos depois. Mesmo com a demanda por carne relativamente estável, a oferta de animais para abate sofre oscilações conforme o comportamento do produtor, especialmente em relação ao abate ou à retenção de fêmeas.
De acordo com Diego Guidolin, consultor em pecuária do Departamento Técnico da Famasul, a pecuária bovina se diferencia de outros setores produtivos por depender de um intervalo biológico longo. Isso significa que decisões tomadas no presente, como o descarte de matrizes ou a retenção de fêmeas para reprodução, só terão reflexo efetivo no mercado após um período prolongado.

Variação do preço do bezerro e do número de abate de fêmeas no estado de Mato Grosso do Sul. (2025 com valores considerados até novembro)
Essa dinâmica pode ser observada na relação entre o abate de fêmeas e o preço do bezerro no estado. Em momentos em que o abate de matrizes aumenta, há um crescimento temporário na oferta de animais, o que tende a pressionar para baixo os preços do bezerro no curto prazo. No entanto, esse movimento gera consequências futuras importantes.

Variação do preço da arroba do boi gordo e do bezerro de 8 a 12 meses em Mato Grosso do Sul. (2025 com valores considerados até novembro)
Durante a fase de baixa do ciclo pecuário, a desvalorização da arroba do boi gordo estimula o descarte de fêmeas, já que o setor de cria passa a operar com margens mais apertadas. Como o preço do bezerro acompanha o valor do boi gordo, os criadores enfrentam menor rentabilidade, o que desestimula a retenção de matrizes. O aumento do abate eleva a oferta de carne no curto prazo e contribui para manter os preços em patamares mais baixos.
No médio e longo prazo, porém, esse comportamento se inverte. A redução no número de fêmeas compromete a produção futura de bezerros, já que o ciclo reprodutivo envolve aproximadamente nove meses de gestação e mais sete a nove meses até o desmame. Ao todo, são necessários cerca de 18 a 20 meses para que a menor oferta de animais de reposição seja sentida de forma significativa pelo mercado.
Esse período marca o início da fase de alta do ciclo pecuário. A valorização do bezerro costuma anteceder o aumento no preço da arroba do boi gordo, sinalizando uma futura redução na oferta de animais prontos para o abate. Com o custo de reposição mais elevado, recriadores e terminadores enfrentam margens mais pressionadas, o que impacta a dinâmica do mercado.
À medida que os animais que deixaram de ser produzidos chegam à idade de abate, os frigoríficos passam a enfrentar menor disponibilidade de bovinos, sendo obrigados a pagar mais para garantir matéria-prima. Esse movimento impulsiona a valorização da arroba e consolida a fase de alta do ciclo.
Com os preços em níveis elevados, o comportamento do produtor muda novamente. A valorização dos animais de reposição estimula a retenção de fêmeas para reprodução, reduzindo o abate de matrizes. Após cerca de 20 meses, essa decisão resulta em aumento da oferta de bezerros, iniciando gradualmente uma nova fase de baixa nos preços.
Segundo Guidolin, a decisão de abater ou reter fêmeas é o principal motor do ciclo pecuário, pois determina a capacidade futura de produção do sistema. Diferentemente do abate de machos, que impacta apenas a oferta imediata de carne, o manejo das matrizes influencia diretamente o volume de animais disponíveis nos anos seguintes.
No Brasil, o ciclo pecuário completo costuma durar de seis a dez anos, com cada fase, de alta ou de baixa, se estendendo por períodos de três a cinco anos. Fatores como condições climáticas, custos de produção, acesso ao crédito e mudanças no mercado podem acelerar ou retardar esse movimento, mas não alteram sua lógica estrutural.
Para a Famasul, compreender o funcionamento desse ciclo é fundamental não apenas para os produtores, mas também para agentes do mercado, investidores e todos que acompanham o setor de carne bovina, pois permite uma leitura mais estratégica das oscilações de preços e das oportunidades ao longo do tempo. Com informações: Campo Grande News
